Gostaria que todos que acessam o Administradores lessem esse artigo. Não por que fui eu que escrevi, mas pela estória e exemplo de atitude que ele nos traz. Quatro meninos de Antonina do Norte, a 473 km de Fortaleza/CE, protagonizam uma estoria de perseverança, emoção e uma bela vitória.
Acho que estou ficando velho e coração manteiga derretida, como lembra a minha mãe toda vez que vê alguém chorando à toa. Foi o que aconteceu na tarde do último sábado (11), assistindo ao programa Caldeirão do Huck, na Tv Globo. Aliás, não é a primeira vez que me emociono diante das estórias que o excelente Luciano traz à luz no seu programa. É que dessa vez, em particular, identifiquei muitas semelhanças entre a estória contada e a minha própria trajetória e isso mexeu comigo.
Quatro meninos – Márcio, Geunny, Eldo e Andrei – com idade entre 17 e 22 anos, da longínqua e pequenina, Antonina do Norte (473 km de Fortaleza), no centro sul cearense, resolveram investir no contraponto da cultura musical dominante na região, o forró, e montaram uma banda de rock, conhecida pela população de 6.761 pessoas como Diretrize 28. Que sufoco, fazer rock, e sem dinheiro, no sertão nordestino.
Um vídeo caseiro, encaminhado à produção do programa – mostrando a saga para manutenção da banda, o inacreditável local de ensaio e um pouco da produção musical desses intrépidos roqueiros da caatinga – despertou a atenção do Luciano Huk e do produtor musical Rick Bonadio, que viajaram 3.000Km, desde São Paulo (o Rick) e Rio de Janeiro (o Luciano), para conhecer de perto os roqueiros de Antonina do Norte.
Com decisão tomada, de capturar e produzir a banda para apresentação no quadro Olha Minha Banda – que já faz um enorme sucesso no programa – Luciano agora precisava criar o clima e o envolvimento que dão o tom emocional ao quadro. Essas coisas que nos fazem chorar e garantem audiência e repercussão ao programa. Para isso, escalou Niara Meireles, apresentadora do programa Se Liga, da TV Verdes Mares, afilada da Globo no Ceará, para entrevistar os músicos para o programa local e desanimá-los, dizendo-lhes que rock no Ceará não dá certo e que eles deveriam mesmo era tocar forró.
No lesco-lesco da entrevista de araque, Luciano e Rick Bonadio adentram o local de ensaio, um cubículo no reboco, que mais parece uma estufa de tão quente, e a emoção rola solta. Abraços, pulos de alegria, choro incontrolável e o contentamento e a emoção tomam conta dos meninos, de toda a produção e do telespectador. E assim continua o quadro, que inteiro durou 60 minutos. Uma eternidade para a televisão, mas que passou como se fossem segundos. De tão leve e envolvente.
Mas, para que a banda se apresentasse no programa, o auto-intitulado “fã número um”, Francisco Jeremias, o Chapadinha – que com o salário mensal de cem reais, trabalhando na funerária local, ainda conseguia ajudar, financeiramente, a Banda Diretrize 28 – teve pela frente um enorme desafio: pedalar de Antonina do Norte até o Rio de Janeiro, com a mega verba de cinqüenta reais, doada por Luciano. Desafio aceito, e depois de 160h horas de sufoco, cansaço, poeira e experiência acumulada para escrever um livro, ele entrou triunfante no estúdio “F” do Projac, e possibilitou aos quatro amigos a (até aqui) maior oportunidade das suas vidas: tocar duas músicas, em grande estilo, no Caldeirão do Huk, em rede nacional de televisão e na Globo.
Eles provaram que, realmente, são muito bons. Foram duas músicas fortes e de qualidade. Os caras produzidos, maquiados e ensaiados, figurino bacana, nome novo da banda, logomarca bem pensada, alto estima no céu e dois tremendos padrinhos. Só não me recordo e ouvi-los agradecer a Deus. Mas Deus, certamente, estava com eles, porque isso não pode ser coisa apenas de sorte e atitude. No domingo, ao meio dia, quando finalizei esse artigo, a página do Olha Minha Banda já registrava 230 posts de elogio à Geração Ypsilone. O novo nome da Diretrize 28.
Não sei o que vai acontecer com a banda daqui pra frente, mas fica o exemplo de perseverança, atitude e fé que são a marca registrada do artista brasileiro. Notadamente, dos que residem nos confins desse enorme país. Fica também, na minha avaliação, a maior lição extraída dos 60 minutos que durou o quadro. A frase de Francisco Jeremias, o “fã número um”, que, diante da pergunta do apresentador, sobre o que ele seria capaz de fazer para realizar o sonho da banda e dos amigos de Antonina do Norte. “Fora tirar o sonho de outras pessoas, topo qualquer parada!”, respondeu. Que a frase do Chapadinha se transforme no lema da Geração Ypsilone.
Nelson Gonçalves é jornalista e palestrante.

